sexta-feira, 22 de outubro de 2010

As pessoas sensíveis

Sophia de Melo Breyner Andresen
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.
Sophia de Melo Breyner Andresen
Sem apontar os hipócritas, porque não lhes dou o troco, associo-me ao Eduardo Pitta no repúdio à utilização abusiva do nome de Sophia.

A Sophia tenho profundo respeito e dela guardo a memória, como marca de vida, da sensibilidade e do respeito pelos outros, principalmente pelos que sofrem.

O ocasional encontro nos passos perdidos, coisa de dois ou três minutos, foi tempo suficiente para saber que ela não perdoava, principalmente aos devotos, a hipocrisia e o obscurantismo.

O seu apelo ao "não o façam" não é um apelo ao "condenem-nos!".

Leia-se o poema e compreenda-se.
LNT
[0.369/2010]

5 comentários:

fatbot disse...

Que beleza este poema de Sophia!!! Grande escritora ... adoro ler tudo aquilo que Ela produziu! Este poema deveria ser policopiado, entregue a quem manda no nosso Pais, lido e analisado ... talvez alguém aprendesse alguma coisa! OBRIGADA! Um até BREVE

mdsol disse...

:)

João Dias disse...

Este poema saiu num teste que fiz no ano passado, 11ºano. Li-o e achei-o simplesmente fantástico, de uma pertinência incrível e actualidade constante. De facto, a hipocrisia é inconsciente: para aqueles que a praticam. Resta só mesmo pedir a compaixão divina para os desgraçados...

alfacinha disse...

escreve poemas numa língua muita inteligível
cumprimentos de Antuérpia

maloud disse...

Este poema lembra-me sempre a Mónica (é Mónica, não é?) dos Contos Exemplares.