- Vê lá se te despachas, pá, que tenho uma pressa dos diabos e não tenho a tua vida de barbeiro. A minha exige muita movimentação para arregimentar um número diverso de apoios capazes de me libertarem do núcleo que me tenta aprisionar.
António e Luís conheciam-se há décadas. Como todos os verdadeiros amigos nem sempre estiveram de acordo e, mesmo quando de lados contrários da barricada, nunca deixaram confundir a sua amizade com as opções de cada um. Desta vez a coisa era mais difícil porque, diferente de agora, António sempre tinha discordado do Sr. Luís em defesa de segundos figurões.
- Vamos lá à função, António, que já sabes que daqui não sais com um pelo fora do sítio. Acomoda-te como te acomodaste com a declaração de alguns fundadores. Tens sorte de já restarem poucos, infelizmente, o que faz parecer que quem fundou a coisa está maioritariamente contigo, mas aqui para nós que ninguém nos ouve, deixa ficar grandes dúvidas porque quase todos sempre respeitaram as regras que fundaram para que a coisa não fosse anárquica e nunca conduziram um putsch como o que está em curso. É verdade que muitos deles elegeram e foram eleitos de um lado ou de outro, que quase todos se baterem sempre com lealdade e fizeram-no de acordo com os tempos próprios, com processos eleitorais agendados e nunca em afronta ao poder democraticamente instituído. Vivemos outros tempos, sei, mas o que queres? sou mais velho do que tu e não deixo de ter estas referências como guia de vida.
António sempre calmo, com aquela calma que o caracterizava desde a conquista da JS e da FAUL e que nunca o inibiu de fazer o que sempre achou ser necessário fazer para atingir os seus fins, respondeu com o seu sorriso: - Lá estás tu com os pruídos de sempre, escrúpulos que nunca te deixaram ir além da função que exerces. O caminho é estreito, meu caro, e por ele só passa um de cada vez. E agora é a minha vez. Foi-me anunciado, percebes?
E para rematar: - É pá, acaba lá com isso que já estás a exagerar no desbaste.
O barbeiro foi buscar a escova que passou para a mão de António com um: - Vê lá se te limpas, pá e vai-te à vida que por aqui fico a ver – te escangalhar o que tanto trabalho deu a construir.
Abriu-lhe a porta de saída do ar condicionado e com um aceno de velhas camaradagens despediu-se com um “espero que o nosso próximo encontro seja mais confluente”.
LNT
[0.271/2014]
Imagem: http://www.gutenberg.org/
Há aproximadamente um mês fomos chamados a exercer o direito de escolha dos representantes portugueses no Parlamento Europeu. O Partido Socialista apresentou a melhor e mais categorizada lista, assim entendido pelos lusos que a sancionaram maioritariamente. (Aqueles que se deram ao trabalho de perceber a importância destas eleições e não se perderam em apreciações desviantes, nem em brincadeiras de redução de votos).
Uma das minhas referências políticas sempre foi Manuel Tito de Morais. Homem prosseguido pelo anterior regime, preso, torturado, maltratado, exilado, resistente sempre.