domingo, 1 de junho de 2014

O barbeiro [ I ]

O BarbeiroCom a casa vazia, o barbeiro sentado na cadeira dos clientes revia o tempo em que não tinha mãos a medir. Os dois empregados foram embora há muito e as manicuras tiveram de seguir outro caminho, umas por aí e outras nas Franças e Alemanhas a fazer pela vida.

Bom dia, Sr. Luís, iam mandando com um aceno à porta, os velhotes de barba crescida que deixaram de poder aparar.

Olá, Sr. Luís, apregoavam os desgrenhados que deixaram de cortar a trunfa desde que foram obrigados a inscrever-se no centro de emprego.

A esperança do barbeiro, aflito com a escassez de clientela e com o aperto do IVA que não podia repercutir nos preços dos poucos que ainda entravam, residia na notícia que lia no jornal. - Os gajos foram derrotados, pode ser que isto mude. É só mais um jeitinho, um esforço, uma pressão.

Animado, liga a televisão para ouvir a retractação dos derrotados e, sem perceber nada, vê desfilar um rosário de caras novas dos velhos de sempre a recitar coisas que nada lhe dizem e pensa para os seus botões:

- Lá estão eles de novo a tratar da vidinha. Estou lixado! Cada vez mais lixado!
LNT
[0.197/2014]
Imagem: http://www.gutenberg.org/

1 comentário:

luís rodrigues coelho Coelho disse...

Estamos todos cada dia pior e não é apenas e só este barbeiro.
Daqui a uns meses já nada podem cortar porque não haverá nada...